Em busca do corpo perdido
Inspirar profundamente, devagar, e depois soltar todo o ar numa explosão menor do que um segundo. Várias vezes. Limpar-me fazendo isso. Sentir o cheiro dos meus pulmões.
Erguer os braços o mais que posso, esticando a coluna e as pernas, encaixando o quadril. Dar o máximo tentando alcançar o teto enquanto inspiro, tentar relaxar enquanto expiro, sem mudar de postura.
Me voltar para trás como um arco e depois me dobrar para frente para alcançar os pés.
Travar a cintura e torcer o tronco para trás, segurando o maior tempo que sou capaz de agüentar. Me sustentar de lado sobre um só braço e depois o outro.
Respirar profundamente em cada posição. Sentir cada músculo esquecido e renegado que carrego sem usar. Sentir alívio. Sentir dor. Sentir o limite da minha resistência e aumenta-lo. Pingar suor. Inspirar profundamente e insistir, e ceder um pouco mais liberando o ar, sem cessar.
Virar de cabeça para baixo, sentir todo o peso do meu corpo sobre os meus ombros invertidos. Enganar a gravidade. Deixar meus órgãos, fluidos, rugas por surgir usarem a gravidade para inverter o processo que sofrem com ela todos os dias. Inundar meu cérebro de sangue e oxigênio, ter outro ponto de vista, mais uma vez. Deixar minhas pernas vazias voltadas para o céu apenas um pouco e me alongar ao contrário em busca do infinito.
Depois apenas deitar estirado, como um cadáver, com as costas inteiras no chão e deixar cada músculo dormir. Senti-los e solta-los, um por um, até que durmam. Procurar cada pequenino ponto de tensão e elimina-lo. Sublimar a mente. Ser apenas uma respiração lenta e constante. Ser o infinito espaço vazio entre a inspiração e a expiração, entre a expiração e a inspiração.
E me sentir totalmente inteiro sendo vazio.
E me sentir totalmente vazio sendo inteiro.
Acordar sentindo dores em lugares que eu nem sabia que existiam – partes há muito esquecidas de mim – e ser grato por isso.
Ouro Preto e eu
Eu não nasci em Ouro Preto. De qualquer modo antes que qualquer coisa mais marcante me acontecesse fui morar lá com minha família e lá estão todas as minhas primeiras e mais remotas lembranças da infância. E não são poucas, mesmo que eu tenha ido embora antes de completar 5 anos. E as valorizo muito.
Assim o menino que eu fui primeiro, esse sim, nasceu em Ouro Preto; e me lembro que bem pequeno eu dizia que era mineiro renunciando ao Rio de Janeiro dos meus pais.
O Rio era para mim a cidade dos meus parentes e eu me sentia realmente em casa entre as ladeiras calçadas com pedras irregulares por onde eu ia de Kombi para a escolinha alheio aos edifícios ancestrais pelos quais passava.
Da minha velha casa, que voltei a visitar agora, 20 anos depois – e que reconheci sem nenhuma hesitação, apesar de terem mudado a pintura – lembro-me de cada cômodo, da cozinha enorme, da empregada Joana que no meu pouco entendimento era como uma grande amiga da família, do pátio nos fundos, com piso amarelado, e da vista monumental do pico do Itacolomy.
Vi na minha volta a cidade, ao lado da velha casa – muitos anos mais velha do que eu poderia supor na infância – o nome “HEZIR” gravado em azulejos. O nome do meu antigo vizinho pintor. As letras já estavam lá há 20 anos embora eu não soubesse ainda ler.
Caminhei novamente pelas ladeiras e até caí, como devo ter caído.
Ouro Preto permanece quase sem mudanças, protegido por leis internacionais, preservando de maneira surpreendente ao meu patrimônio afetivo e sinto que sempre poderei voltar e, revendo, deixar as lembranças mais nítidas.
Mas ainda serão só lembranças, infelizmente, tanto quanto não sou mais um menino.
É uma pena.
Dilemas existenciais entre aliterações
Então ela me propôs minha própria proposta que eu por minha covardia e inércia não poderia propor. E fui compelido a aceitar e a me comprometer finalmente com o caminho, pois faltava-me somente o seu sangue novo que agora me oferecia.
Assim a estrada abriu-se para mim, todos os cadeados foram arrebentados e os portões se escancararam estrepitosamente e ventou forte no meu rosto e senti o cheiro da chuva poderosa que estava para cair em outros mundos à frente.
E com um sorriso em meu rosto nos demos as mãos.
Sem início
Como quem ouve um canto longínquo de pássaros e ainda é capaz de sentir a brisa fresca da primavera com seu aroma de vida; e se apega a isso a esperar por melhores estações.
Eu hoje estou sozinho e desorientado, mas ainda não estou vencido.
O ar que exalo de meus pulmões se espalha pela terra inteira com o vento. Campos e pastos em outros continentes respiram minhas moléculas carbônicas.
Eu não sou muito mais que uma estranha reação química temperada de emoções e falsa importância, mas isso me basta.
Sem final
Eu hoje estou carente como o jovem virgem que se apaixona pela prostituta. Eu hoje estou apaixonado com brasas acesas no peito. Estou quente como a areia do deserto distante do mar. Estou cansado como quem se recusa a morrer.
Poética
Não quero mais a poesia do sofrimento.
Quero antes a poesia da transcendência.
A poesia que nos sublima
com versos que nos assombram e calam
sem dor
mas que nos guiam através da dor
e para mais alto.
Quero antes a poesia
que me desintegre
em minhas mais básicas estruturas
e me liberte
para sempre
totalmente.
(Urca, 20 de julho de 2007, 00:05h)
Flores
Eu tenho as flores em minha mais alta conta. As flores são minhas amigas que enfeitam a minha vida.
Sensíveis e delicadas são as flores, que não gostam de ser tocadas e morrem se são colhidas.
Para ver. Não para ter.
Tem no vento seu único carinho.
Sobre a passagem do tempo
É quinta-feira e as esperanças foram deixadas para trás. Eu não estou morto afinal e – infelizmente? – ainda é possível seguir como se nada tivesse mudado. É perfeitamente possível se conformar com a velha vida e sufocar os sentimentos que agora me ocorrem. Tudo em nome da segurança e da covardia.
Poderia ser o contrário e tudo em nome da aventura e da coragem, mas que aventura se abre para mim? Somente a aventura de abandonar tudo e perder os amigos, ser rejeitado e se rejeitar. A aventura de sofrer tão somente. A coragem de fazer o que sei certo e resistir à dor. Eu não tenho essa coragem e não quero me aventurar neste sofrimento.
A verdade é que eu desejava muito. Queria que as oportunidades se tivessem aberto para mim por conta própria e demorei a tomar as rédeas da minha vida. Agora é tarde. Agora toda a ação será precipitada, todo avanço será nocivo. Agora é o momento de reavaliar tudo e talvez até recuar de determinadas posições. Não adianta fingir que sou maior do que sou e lutar contra forças superiores. De nada vale a fortuna não ganha e a aposta perdida. De nada vale o amor não retribuído.
Vale somente para os românticos e sofredores como eu que valorizam cada sonho e cada sentimento por pequeno que seja como se dele dependessem as estruturas mais básicas do universo. Tudo valerá se me tornar mais forte. Tudo valeu por me lembrar que tenho sangue nas veias. Outras apostas eu ainda farei e até ganharei algumas entre outras tantas. Outras mulheres passarão em minha vida. Muitas eu desejarei secretamente e não possuirei jamais. Algumas quem sabe me desejem e não sejam correspondidas. Umas poucas talvez tenham um relacionamento de justa troca comigo. As pessoas que hoje amo talvez sejam lembranças doloridas e nada mais. Talvez não sejam nem doloridas. Talvez nem sejam lembranças. Talvez eu nem seja este mesmo eu no final. Tudo muda.